
Projeto autoral de tipografia vernacular que virou ecossistema gráfico.
De um cartaz de rua à criação de uma cachaça fictícia, envolvendo fonte desenhada à mão, direção de arte, cenografia em estúdio e fotografia. Reconhecido com o prêmio Best of Show da Miami Ad School.
Um cartaz colado num muro do bairro da Liberdade, em São Paulo.
Pincel grosso, régua nenhuma, sem pretensão estética.
A força daquele traço, sua irregularidade brutal e funcional, revelava uma identidade visual espontânea, nascida do improviso. Esse gesto gráfico foi a matéria-prima para o desenvolvimento da tipografia Chorume, que preserva o ritmo, os erros e a urgência de sua origem.
O vernacular brasileiro de rua é um tipo de design que ninguém assina.
Ele existe porque precisa existir, e é essa urgência que o torna honesto.
Moodboard de pesquisa: atmosfera de decomposição, terra úmida e permanência orgânica.
A partir das letras do cartaz, desenhei um alfabeto completo mantendo as imperfeições como parte da identidade. A fonte explora irregularidades como ritmo, peso e alinhamento, reforçando o aspecto orgânico e marginal do seu ponto de origem.
O nome Chorume surgiu naturalmente. Imaginei uma cachaça artesanal fictícia, produzida com água da chuva, embalada em garrafas escuras, com identidade gráfica inspirada em xilogravura e signos de decomposição.
O rótulo mistura ilustração, tipografia autoral e simbologias do sertão. A parte inferior, com padrões de insetos e vegetação, remete à fermentação, à morte, à regeneração orgânica. A composição equilibra o grotesco e o lúdico, o artesanal e o especulativo.
Para materializar essa narrativa, construí um pântano cenográfico em estúdio. Usei um aquário de vidro, terra úmida, musgo e ossos reais emprestados por um estudante de veterinária.
A composição foi pensada como um relicário fúnebre da garrafa, como se tivesse sido desenterrada de um sítio arqueológico pós-apocalíptico.
Chorume é, ao mesmo tempo, uma crítica e uma celebração. Do lixo nasce linguagem, da decomposição nasce um novo design.
Esse projeto me ensinou que vernacular não é falta de refinamento, é outro tipo de ofício. Aprendi a olhar pra coisas que ninguém olha, a respeitar a urgência do improviso e a confiar que o craft existe em todo lugar, não só nos lugares premiados.
O olho que desenhou essas letras em 2015 ainda mora em cada interface que eu construo hoje.
O projeto foi reconhecido com o prêmio Best of Show da Miami Ad School, eleito entre todos os trabalhos da turma.
Dez anos depois, o troféu ainda está na minha estante. Serve como lembrete de onde minha linguagem visual começou: olhando pra coisas que ninguém olha.